domingo, 5 de outubro de 2008

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As raízes e singularidades da EaD

Valéria Sperduti Lima
Professora da Universidade Federal de São Carlos - UFSCar
A Educação a Distância (EaD) é uma modalidade de ensino-aprendizagem mediado por tecnologias, onde os participantes (professores, tutores e alunos) estão separados espacial e/ou temporalmente (Moran, 2002).
Nesta modalidade, o aluno é co-responsável pelo seu processo de aprendizagem, construindo conhecimentos e desenvolvendo competências, habilidades, atitudes e hábitos relativos ao estudo, à profissão e à sua própria vida, no tempo e no local que lhe são adequados, sem a participação em tempo integral de um professor.
O educador (professor e / ou tutor) é o mediador deste processo e pode atuar, ora a distância, ora em presença física ou virtual, participando do processo de aprendizagem do aluno e o educando a se organizar temporalmente para permanecer atento às necessidades dos saberes e às necessidades sociais de cada disciplina.
Para desenvolver esta mediação ele conta com o apoio de sistemas de gestão e operacionalização específicos, bem como materiais didáticos intencionalmente organizados, apresentados em diferentes suportes de informação, utilizados isoladamente ou combinados, e veiculados através de diversos meios de comunicação (Referenciais de Qualidade para Cursos a Distância: 2003).
Atualmente, a Internet é a principal tecnologia adotada para os cursos virtuais, associada e/ ou integrada a outras tecnologias, como: materiais impressos, CD-ROMS, DVDs, vídeos, rádio, telefone, etc.
Mas, quais as raízes da EaD para que possamos compreender o atual contexto em que se desenvolve?
Segundo Peters (2003), a educação a distância se originou a partir das formas de estudo em sala-de-aula e serve-se delas. Como exemplo: aprender por meio de leitura de textos; aprender por meio de estudo próprio e dirigido; aprender por meio de trabalho científico autônomo; aprender por meio de comunicação pessoal; aprender com a ajuda de meios auditivos e audiovisuais; aprender por participação em tradicionais ofertas de ensino acadêmico (preleção, seminários, classes, laboratório).
As singularidades desta modalidade de ensino-aprendizagem são construídas a partir de combinações entre as diferentes formas de estudo em sala-de-aula, surgindo peculiaridades, como: o predomínio do ensino-aprendizagem via leitura e escrita sobre a oralidade das aulas presenciais; a comunicação pessoal associada ao discurso científico, configurando uma nova relação do professor e do aluno com os conceitos; a possibilidade de diálogo simultâneo e dinâmico em ambientes de comunicação coletiva, potencializando a participação, a exposição e a autoria de cada aluno no processo de construção do grupo; a acessibilidade, por meio de computador pessoal, potencializando o auto-estudo, a autonomia do saber e, principalmente, a flexibilidade para a participação do aluno, integrando trabalho, estudo e vida pessoal.
Uma outra característica da EaD é a necessidade de formação continuada, envolvendo educadores (professores e / ou tutores) e alunos que aprendem constantemente, em serviço, juntando teoria e prática, refletindo sobre a própria experiência, ampliando-a com as novas informações e relações. Todos são aprendizes em diferentes níveis: dos conceitos desenvolvidos nas atividades individuais e coletivas; das diferentes tecnologias; das linguagens e modos de comunicação; de um novo gerenciamento de sala de aula; das Leis de Direitos Autorais para a confecção de materiais impressos, CD-ROMs e páginas na Internet (apud Referenciais de Qualidade para Cursos a Distância) e, principalmente, de uma nova convivência, que necessita da troca constante de experiências e da colaboração para gerar conhecimentos.
Porém, este potencial democrático não é garantido espontaneamente, muito menos a configuração didática de EaD apresentada.
É necessário desenvolver uma estrutura organizacional e cultural que dê suporte à colaboração entre os participantes, sejam os educadores (professores e / ou tutores) com a função de desenhar e implementar o acesso à aprendizagem no ambiente, ou os alunos estabelecendo parcerias e colaboração na construção de conhecimentos.
O método de ensino influencia os limites e possibilidades das interações e relações do conhecimento, assim como os papéis de cada um e do grupo, que caracterizam as regras e atividades a serem desenvolvidas.
Rheingold (1996:279) resgata momentos de fracasso na educação informática na década de 80, pelo fato dos computadores serem encarados apenas como mais um canal destinado à transmissão do saber do educador para o aluno (paradigma da difusão), não oferecendo um ambiente para que os alunos pudessem explorar e aprender em conjunto (paradigma da rede), alterando o próprio conceito de relação do ensino com a aprendizagem.
Para Odasz (1991), a comunicação mediada pelo computador constitui uma mudança epistemológica por parte de quem adota esta tecnologia. Ele se refere a uma consciência de comunidade, onde os indivíduos criam um ambiente de trocas intelectuais e subjetivas. O contexto sócio-cultural pode tomar corpo e participar ativamente do discurso.
Neste ambiente, a interação entre o educador e o aluno é apenas um viés, necessitando-se da construção de outras relações no meio: dos alunos entre si e dos educadores de um curso entre si, compartilhando experiências.
A atuação do educador para a configuração deste novo contexto é essencial, criando relações abertas, no sentido de conhecer e desenvolver as potencialidades dos discursos e, ao mesmo tempo, criar relações objetivas dentro de uma proposta de trabalho. Esta é uma prática valiosa, capaz de contribuir para evitar o isolamento de cada aluno e manter um processo de aprendizagem instigante, motivador, facilitador de interdisciplinaridade e de adoção de atitudes de respeito e de solidariedade ao outro.
Em síntese, a EaD compreende uma cultura de estudo e de relações modificada, na qual, educadores e alunos, não desenvolvem apenas saberes, mas também competências de estudos e de socialização.


Fonte: http://www.educacaoadistancia.org.br/site/noticia/0043-as-ra%C3%ADzes-e-singularidades-da-ead